Política em Cuba é coisa do povo!

Por aqui se ouve muito dizer, pela mídia, ou por pessoas-que-conhecem-pessoas-que-foram-para-Cuba, que o país vive sob uma cruel ditadura. Dizem que lá a política é coisa exclusiva para os altos membros do Partido Comunista Cubano, que para os demais resta o silêncio e o conformismo. Dizem que as pessoas têm medo de falar sobre o regime por temerem represálias… Dizem muitas coisas. Vou dizer também. Mas não o que ouvi, vou dizer o que vi da política em Cuba.

Comitês de Defesa da Revolução

Foto: Alexandre HaubrichOs Comitês de Defesa da Revolução (CDR’s) são o que o nome já diz. No entanto, engana-se quem possa pensar que os CDR’s são organizações militares de defesa armada da Revolução, não que eles não estejam prontos e dispostos a fazer isso se for preciso. Os Comitês de Defesa da Revolução são, na verdade, organizações políticas onde a defesa da revolução acontece no campo das ideias e da participação.

Precisamente, os CDR’s são organizações que estão em cada quarteirão de cada bairro de cada município de cada província do país, e dele fazem parte todos os moradores da quadra que tenham mais de 14 anos e que desejem participar. É função do CDR, por exemplo, deliberar sobre as necessidades da comunidade, vigiar para que não haja crianças sem estudar ou adultos sem trabalhar, escolher o candidato que vai representar a comunidade nas eleições.

Foto: Alexandre Haubrich

Os CDR’s são a instância do sistema político cubano onde a população participa diretamente e, de fato, existe uma grande participação. Andando por Havana, diversas vezes pude presenciar reuniões desses Comitês, na rua mesmo, em frente à casa do presidente do CDR. Existe a consciência de que o poder está nas mãos do povo, e o povo usa o poder que tem. Nas reuniões por que passei havia sempre cerca de 30, 40 pessoas, desde jovens até idosos. Esse é o número de pessoas que estavam participando da reunião do CDR da sua quadra, agora, imagine a expressividade da participação popular se multiplicarmos isso pelo número de quarteirões de Cuba…

Eleições

Sim, existe eleição em Cuba. E eu tive o privilégio de acompanhar o pleito do dia 03 de fevereiro, quando foram eleitos os 612 membros da Assembleia Nacional do Poder Popular e os mais de 1200 membros das Assembleias Provinciais.

IMG_4977O processo eleitoral cubano é realmente muito diferente do que acontece no Brasil, a começar pelo lançamento das candidaturas. Uma pessoa não pode se autoproclamar candidata, ela deve receber tal indicação da sua comunidade. São os membros dos CDR’s, portanto, que escolhem os candidatos que, mais tarde, serão votados nas eleições.  Um detalhe muito importante é que não é preciso ser membro do Partido Comunista Cubano para ser aclamado candidato, basta ser maior de 16 anos e que essa seja a vontade de seus vizinhos; logo, se a oposição não consegue ter candidatos não é porque não possa, mas porque os opositores do regime, que de fato existem, são uma minoria e não são escolhidos como candidatos pela maioria revolucionária do povo.

IMG_4956Outro ponto fundamental é a campanha eleitoral. Ela é simplesmente a mesma para todos os candidatos. Não existem cavaletes nas ruas, santinhos no chão, propaganda em rádio e TV… O que existe é o currículo dos candidatos, meramente. O que importa não é o candidato com a campanha mais cara, mais bonita, com as promessas mais mirabolantes, importa quem é o candidato. Por isso, ficam espalhados pela cidade, em prédios públicos, escolas, mercados, CDR’s, murais com o perfil de todos os candidatos, com: nome, idade, escolaridade (a grande maioria com nível superior), ocupação e um pequeno histórico pessoal e político. Simples, assim, é a campanha eleitoral.

IMG_5089Quanto às eleições que acompanhei, visitei três colégios eleitorais, dois em Caimito e um em Guayabal de Caimito. Nos três locais foi tudo muito tranquilo, chegamos, nos identificamos (estávamos em um grupo de quatro brasileiros), perguntamos sobre como funcionavam as eleições, quais eram os cargos em disputa… Acompanhamos as eleições sem nenhuma burocracia, nos explicaram o processo, nos mostraram as cédulas, os locais fechados aonde os eleitores vão para anotar seu voto, as urnas.

IMG_5097Nessas cédulas estão os nomes de todos os candidatos, e os votantes optam por um ou por todos. Nas eleições de 03 de fevereiro, como havia dois cargos em disputa, eram duas cédulas, cada uma depositada em uma urna diferente. As urnas são guardadas por crianças do primeiro ao nono ano, chamadas de Pioneiros de José Martí, que participam das eleições de forma voluntária. Além disso, os colégios eleitorais são responsáveis por buscar os votos de idosos e pessoas com dificuldades de locomoção. Os candidatos são eleitos mediante a maioria dos votos e podem ter seus mandatos revogados pelo povo a qualquer momento.

muralA política é realmente uma constante na vida dos cubanos, e ela está presente nas ruas: através de murais, cartazes, prédios pintados com temáticas e lemas da Revolução. Fora isso, além dos CDR’s, existe muitas outras organizações populares de que eles podem fazer parte, como é o caso da UJC, União de Jovens Comunistas; CTC, Central de Trabalhadores de Cuba e a FMC, Federação de Mulheres Cubanas.

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Hugo Chávez: amigo de Cuba

IMG_4823Nas minhas memórias cubanas trago também as lembranças da amizade entre dois países: Cuba e Venezuela. Uma amizade que foi se fortalecendo ao longo do governo do Comandante Chávez e que hoje ultrapassa os limites das relações de Estado, hoje é uma amizade entre dois povos, o povo cubano e o povo venezuelano.  Mais que isso, Hugo Chávez era considerado um grande amigo do povo cubano, e ele de fato foi. O Presidente da Venezuela foi extremamente importante não só para a economia, como para a política cubana.

Em Cuba, é comum ver nos vidros dos carros a bandeira cubana unida a uma outra bandeira, e, não raro, essa outra bandeira é a venezuelana. Os cubanos, quando perguntados sobre Chávez, falavam dele com o mesmo carinho com que se referiam a Fidel, e nunca esqueciam de mencionar que estavam rezando pela saúde do Comandante venezuelano.

IMG_5518A integração entre os dois países é tanta que praticamente todos os cubanos com quem conversei tinham um parente ou amigo em missão na Venezuela. Vi muitas pessoas pelas ruas usando bonés ou agasalhos do país amigo. No Palácio de Convenções de Havana, mais de uma vez vi Hugo Chávez ser ovacionado, e por muitas vezes ouvi os gritos de “Viva Raul, Viva Fidel” serem seguidos por “Viva Chávez”.

A aflição do povo venezuelano pela falta de notícias sobre a saúde do Comandante Hugo Chávez, era visivelmente compartilhada pelo povo cubano. E, hoje, certamente compartilham da mesma dor. Mas não estão sozinhos, chora a América Latina

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Cuba: A Economia das Duas Moedas

A economia é o setor mais problemático de Cuba, principalmente por se tratar de um país socialista, que pretende garantir a máxima igualdade entre seus cidadãos. O país tem, claramente, uma grande dificuldade em acabar com as desigualdades econômicas que, claro, passam longe dos abismos sociais que encontramos em países capitalistas como o Brasil, por exemplo.

IMG_3728Cuba é um país historicamente pobre e pouco industrializado, mas, apesar disso, lá não se vê a pobreza extrema, ou a riqueza abundante. No entanto, existem, sim, desigualdades econômicas, e o fator chave para isso é a “doble moneda”. O país trabalha com duas moedas, uma é o CUC, e a outra o Peso Cubano, também chamado de Moeda Nacional; a primeira tem paridade cambial em relação ao Dólar estadunidense, e um CUC vale 24 Pesos Cubanos. O CUC é a moeda que os turistas usam (o turismo é a maior fonte de divisas do país), aceita em hotéis, museus, restaurantes, locadoras de veículos, táxis… Já a Moeda Nacional é a usada pelos cubanos e, geralmente, não é aceita em locais voltados para o turismo.

É justamente o turismo o grande divisor de águas que faz com que a “doble moneda”, que um dia já foi vista como a solução para a economia do país, hoje seja um de seus maiores problemas. Ocorre que os cubanos recebem seus salários em moeda nacional, algo entre 300 e 400 Pesos Cubanos por mês, mas, quem trabalha com o turismo tem acesso ao CUC, uma moeda muito mais valorizada e que a maioria dos cubanos não acessa. Uma pessoa que alugue um quarto de sua casa para turistas por 25 CUCs por dia, que é a média em Havana, e que mantenha esse quarto ocupado por 20 dias no mês, vai receber, em moeda nacional, 12000 Pesos Cubanos, o equivalente 40 meses de salário de um cubano que ganhe o salário mínimo. (Uma das recentes mudanças econômicas do país foi a permissão do trabalho por conta própria. A partir disso, os chamados “cuentapropistas” podem abrir restaurantes, ter um táxi particular, ou alugar quartos para turistas, por exemplo.) Outro exemplo das consequências dessa dualidade monetária: se uma pessoa optar por largar seu emprego para pedir dinheiro aos turistas em frente a um hotel e ela conseguir 1 CUC por dia, o que não seria nada difícil, ao final do mês ela terá ganho 720 Pesos Cubanos, mais que o dobro do salário mínimo de um trabalhador, e isso de fato ocorre.

IMG_4979Realmente Cuba tem salários relativamente baixos, porém, as garantias e subsídios que o Estado dá aos cidadãos fazem com que esses valores se relativizem. Um cubano tem direito ao acesso gratuito à Saúde e à Educação, e ninguém precisa mendigar por esses direitos. Se uma criança, por algum motivo não pode ir até a escola, um professor vai até a sua casa, pois estudar é um direito seu. Além disso, todos os produtos da cesta básica recebem subsídio do Estado, e as famílias têm uma cota mensal para comprar esses produtos, é a chamada “Libreta”. Com o subsídio, o litro de leite custa 0,20 e o pão 0,05 Pesos Cubanos, porém a cota da “Libreta” não dura o mês inteiro, e sem o subsídio o leite passa a custar 5 Pesos Cubanos e o pão 1 Peso. Afora Alimentação, Saúde e Educação, Cultura, Esporte e Lazer também parecem ser prioridades em Cuba, exemplo disso é que, mesmo com o grande problema de abastecimento de papel que o país tem, podemos encontrar livros até por 1 Peso Cubano, o que, se fizermos uma conversão comparando os salários mínimos de Cuba (300) e Brasil (678), aqui custaria R$ 2,26, em valores reais custa R$ 0,08, além disso, entradas para um jogo de baseball do campeonato nacional, para o teatro ou cinema, custam apenas 2 Pesos Cubanos.

Enfim, ao básico e ao prioritário os cubanos têm acesso gratuito ou a preços módicos, mas o que foge disso realmente começa a ficar caro. Comer fora, ao mesmo tempo em que é muito barato para um turista (pagamos R$ 8,00 em um prato com salada, arroz, e bife de porco para duas pessoas e R$ 16,00 por um prato de lagosta), é muito caro para os cubanos, o prato que pagamos 8 reais custaria 96 Pesos Cubanos, quase um terço do salário mínimo; bolacha recheada, refrigerante, produtos de higiene também são muitos caros.

IMG_3663Muito dos altos preços desses últimos produtos citados se deve ao criminoso boqueio econômico a Cuba, praticado pelos Estados Unidos, que por muito tempo impediu que chegassem à ilha desde carros até medicamentos. Hoje, o bloqueio segue dificultando a entrada desses e de outros produtos, mas eles já chegam através de parcerias com países como Venezuela, Canadá, China e Brasil, inclusive, ou são produzidos na escassa indústria local.

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29 dias em Cuba

Mural Cuba CIJAMCuba, como me disseram muitos cubanos com os quais conversei, não é o paraíso, mas também não é o inferno. É um país de contrastes e, talvez, contradições. Ao mesmo tempo em que é um país muito pobre economicamente, no campo político é muito rico. Cuba tem um povo disposto a, em qualquer momento, pegar em armas para defender com o próprio sangue a sua pátria, não por uma obrigação militar, mas porque entendem e fazem parte da revolução cubana.

Há alguns anos eu tinha em mente a fixa ideia de conhecer Cuba, mais precisamente, desde o verão de 2009, quando soube da existência das Brigadas de Solidariedade a Cuba. E foi justamente como brigadista da XX Brigada Sul-americana de Solidariedade a Cuba que cheguei ao Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, no dia 19 de janeiro de 2013. A Brigada ficou sediada no Acampamento Internacional Julio Antonio Mella (CIJAM, sigla em espanhol), no município de Caimito, e durou até o dia 03 de fevereiro. Nesse período assistimos a palestras, sobre a economia e a comunicação em Cuba, por exemplo; conhecemos lugares importantes da revolução, como o local do assalto ao Trem Blindado; trabalhamos na agricultura local, já que o trabalho voluntário é uma das propostas das Brigadas; e participamos da Terceira Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, que contou com a presença de importantes intelectuais como Ignácio Ramonet e Frei Betto.

O período pós-Brigada, de 04 a 16 de fevereiro,IMG_5296 foi muito mais intenso, e foi quando eu me senti realmente imersa na realidade cubana. Nesse período, já no dia 04, eu, meu namorado Alexandre e mais três amigos, Rolf, Brenda e Marília, começamos uma viagem para atravessar Cuba de carro. A ideia inicial era fazer um dia inteiro de viagem até Santiago de Cuba, onde ficaríamos por dois dias e depois voltaríamos em mais um dia de viagem, mas os planos foram mudando e acabamos conhecendo cinco cidades no caminho entre Havana e Santiago: Las Tunas, Santiago de Cuba, Siboney, Ciego de Ávila e Cienfuegos. Essa experiência por si só já foi incrível, daqui a 40 anos vou poder contar para os meus netos sobre a vez em que atravessamos Cuba em um microcarro, mas o mais importante foi o que vimos, ouvimos, as pessoas que conhecemos pelo caminho, isso sim me fez sentir Cuba.

Depois de quatro dias, já de volta à Havana, o tom da viagem mudou novamente, passaríamos ali sete dos oito dias de viagem restantes. Nesses dias eu queria conhecer a cidade e os pontos turísticos, ou políticos, sim, mas também queria viver a vida havaneira: comer onde os cubanos comem, ter o lazer dos cubanos. Nesse quesito acho que não tive muito sucesso, consegui fazer alguns programas deles, e comer em alguns lugares onde eles comem, mas de uma forma geral não consegui me inserir no contexto social local, muito porque não encontrei neles abertura para isso. Aliás, esse é um dos grandes contrastes que notei, tudo o que as pessoas têm de abertas e receptivas pelo interior, as da capital têm de fechadas e, certas vezes, grosseiras. Mas, ainda assim, conhecemos pessoas bacanas, que nos ajudaram a conhecer um pouco mais da história e da atualidade do seu país.

HavanaMesmo com muitas coisas por fazer e conhecer em Havana, ainda conseguimos tempo, e, de certa forma, tínhamos a obrigação de conseguir tempo pra isso, para conhecer Playa Girón, onde o imperialismo Ianque sofreu a sua primeira derrota na América Latina, ao tentar invadir Cuba em 1961. Foi uma viagem curta, de um dia, fomos pela manhã e voltamos ao entardecer, mas muito produtiva. Quando estávamos quase chegando paramos para pedir informação para uma senhora que estava na beira da estrada, ela indicou o caminho e perguntou se a podíamos levar, já que estava indo para o mesmo lado. Levamos, claro. E no fim das contas, com toda a conversa que tivemos com ela, quem saiu ganhando com a carona fomos nós. Em Cuba pedir carona é muito comum, os acostamentos estão sempre cheios de pessoas pedindo carona.  Já em Playa Girón, conhecemos o museu da Batalha e ainda deu tempo de aproveitar a lindíssima praia.

O dia 16 foi de fazer as malas, de ir pela última vez (nessa viagem, claro) ao “Loco Loco”, restaurante onde fomos praticamente todos os dias que estivemos em Havana, de nos despedir dos nossos anfitriões, Letícia e Girardo, (ficamos em casas de família todo o tempo que ficamos em Cuba depois das brigadas), de voltar para o Aeroporto Internacional José Martí, com a tristeza de deixar Cuba e o desejo de voltar em breve, e a felicidade de voltar pra casa. Em Cuba, eles não carimbam o passaporte de quem chega e sai do país porque países como os Estados Unidos dificultam ainda mais o visto e impõem multas para quem tiver esse carimbo. Quem quiser esse registro tem que solicitar no momento em que passa pela imigração. Na chegada eu não me lembrei de pedir o carimbo, e lamentei isso a viagem inteira. Mas na hora de ir embora eu lembrei, e consegui o recuerdo de Cuba que eu mais queria, meu passaporte carimbado pela imigração cubana.

Esse post de abertura do blog foi para fazer um resumo da viagem e situar os próximos posts que serão mais específicos, sobre a política cubana, a economia, a comunicação, a cultura, os personagens, os lugares… Enfim, a partir de agora começo compartilhar a Cuba que conheci.

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