Cuba: A Economia das Duas Moedas

A economia é o setor mais problemático de Cuba, principalmente por se tratar de um país socialista, que pretende garantir a máxima igualdade entre seus cidadãos. O país tem, claramente, uma grande dificuldade em acabar com as desigualdades econômicas que, claro, passam longe dos abismos sociais que encontramos em países capitalistas como o Brasil, por exemplo.

IMG_3728Cuba é um país historicamente pobre e pouco industrializado, mas, apesar disso, lá não se vê a pobreza extrema, ou a riqueza abundante. No entanto, existem, sim, desigualdades econômicas, e o fator chave para isso é a “doble moneda”. O país trabalha com duas moedas, uma é o CUC, e a outra o Peso Cubano, também chamado de Moeda Nacional; a primeira tem paridade cambial em relação ao Dólar estadunidense, e um CUC vale 24 Pesos Cubanos. O CUC é a moeda que os turistas usam (o turismo é a maior fonte de divisas do país), aceita em hotéis, museus, restaurantes, locadoras de veículos, táxis… Já a Moeda Nacional é a usada pelos cubanos e, geralmente, não é aceita em locais voltados para o turismo.

É justamente o turismo o grande divisor de águas que faz com que a “doble moneda”, que um dia já foi vista como a solução para a economia do país, hoje seja um de seus maiores problemas. Ocorre que os cubanos recebem seus salários em moeda nacional, algo entre 300 e 400 Pesos Cubanos por mês, mas, quem trabalha com o turismo tem acesso ao CUC, uma moeda muito mais valorizada e que a maioria dos cubanos não acessa. Uma pessoa que alugue um quarto de sua casa para turistas por 25 CUCs por dia, que é a média em Havana, e que mantenha esse quarto ocupado por 20 dias no mês, vai receber, em moeda nacional, 12000 Pesos Cubanos, o equivalente 40 meses de salário de um cubano que ganhe o salário mínimo. (Uma das recentes mudanças econômicas do país foi a permissão do trabalho por conta própria. A partir disso, os chamados “cuentapropistas” podem abrir restaurantes, ter um táxi particular, ou alugar quartos para turistas, por exemplo.) Outro exemplo das consequências dessa dualidade monetária: se uma pessoa optar por largar seu emprego para pedir dinheiro aos turistas em frente a um hotel e ela conseguir 1 CUC por dia, o que não seria nada difícil, ao final do mês ela terá ganho 720 Pesos Cubanos, mais que o dobro do salário mínimo de um trabalhador, e isso de fato ocorre.

IMG_4979Realmente Cuba tem salários relativamente baixos, porém, as garantias e subsídios que o Estado dá aos cidadãos fazem com que esses valores se relativizem. Um cubano tem direito ao acesso gratuito à Saúde e à Educação, e ninguém precisa mendigar por esses direitos. Se uma criança, por algum motivo não pode ir até a escola, um professor vai até a sua casa, pois estudar é um direito seu. Além disso, todos os produtos da cesta básica recebem subsídio do Estado, e as famílias têm uma cota mensal para comprar esses produtos, é a chamada “Libreta”. Com o subsídio, o litro de leite custa 0,20 e o pão 0,05 Pesos Cubanos, porém a cota da “Libreta” não dura o mês inteiro, e sem o subsídio o leite passa a custar 5 Pesos Cubanos e o pão 1 Peso. Afora Alimentação, Saúde e Educação, Cultura, Esporte e Lazer também parecem ser prioridades em Cuba, exemplo disso é que, mesmo com o grande problema de abastecimento de papel que o país tem, podemos encontrar livros até por 1 Peso Cubano, o que, se fizermos uma conversão comparando os salários mínimos de Cuba (300) e Brasil (678), aqui custaria R$ 2,26, em valores reais custa R$ 0,08, além disso, entradas para um jogo de baseball do campeonato nacional, para o teatro ou cinema, custam apenas 2 Pesos Cubanos.

Enfim, ao básico e ao prioritário os cubanos têm acesso gratuito ou a preços módicos, mas o que foge disso realmente começa a ficar caro. Comer fora, ao mesmo tempo em que é muito barato para um turista (pagamos R$ 8,00 em um prato com salada, arroz, e bife de porco para duas pessoas e R$ 16,00 por um prato de lagosta), é muito caro para os cubanos, o prato que pagamos 8 reais custaria 96 Pesos Cubanos, quase um terço do salário mínimo; bolacha recheada, refrigerante, produtos de higiene também são muitos caros.

IMG_3663Muito dos altos preços desses últimos produtos citados se deve ao criminoso boqueio econômico a Cuba, praticado pelos Estados Unidos, que por muito tempo impediu que chegassem à ilha desde carros até medicamentos. Hoje, o bloqueio segue dificultando a entrada desses e de outros produtos, mas eles já chegam através de parcerias com países como Venezuela, Canadá, China e Brasil, inclusive, ou são produzidos na escassa indústria local.

Anúncios
Esse post foi publicado em Economia e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Cuba: A Economia das Duas Moedas

  1. Antonio Carlos disse:

    Gostei! Enfim li algo equilibrado e não tendencioso. Cuba, tem sim, suas dificuldades, mas existem aspectos relevantes como a garantia de direitos humanos básicos e que devem ser universalizados por qualquer estado, e, principalmente, a busca por uma sociedade igualitária, sem as distorções entre ricos e pobres. Ademais, vivemos para sermos felizes e não escravos do consumo e do trabalho. Há que ser ter um equilíbrio
    Ao invés de guerras, as super potências deveriam preocupar-se em erradicar a pobreza e não saquear os países pobres. A qualidade de vida dos ricos se dá em grande parte a este sistema globalizado expropriador, em que já sabemos de cor o papel de cada país. Este sistema chegou a exaustão e destruíra o planeta, pois é um processo de produção/consumo que foi desatado e que dificilmente será revertido, pois a ganancia por mais lucros é como uma doença, como bem retradado no filme Wall Streat.
    Antonio Carlos(RJ)

    • Concordo com o comentário de Antonio Carlos. Cuba pode ser um país pobre. No entanto, se comparamos seu povo aos miseráváveis que vivem ao margem do consumo social no restante do continente, podemos perceber que a pobreza cubana encontra-se no campo da dignidade humana. Há na minha cidade duas médicas cubanas trabalhando no programa Médicos para Todos, do governo federal. Os outros países latinoamericanos deveriam copiar esse modelo solidário.

  2. Lisandro disse:

    Verdade seja dita, se nunca tivesse sido implantado esse bloqueio econômico a Cuba, o regime de Fidel Castro já teria caído junto com o Muro de Berlim logo após o colapso da União Soviética…e pensar que um dia metade da Alemanha já foi uma Cuba!

  3. Victor Alberto danich disse:

    O bloqueio econômico foi implantado pelo temor de ver uma Cuba progressista avançar nas suas conquistas sociais, além do permitido pelo império. Todas as ditaduras do mundo caíram por consequência das desigualdades impostas por seus governantes. Apesar dos problemas econômicos que a ilha enfrenta atualmente, seu povo continua orgulhoso de não se submeter aos designios imperiais de seu vizinho poderoso. Qual seria a razão então de Cuba ter uns dos índices de desenvolvimento humano (IDH) mias altos do mundo?

  4. A.Henrique disse:

    Viva Cuba! Viva Fidel!

  5. José disse:

    Se 1 peso vale 1 dólar do jeito que o dólar tá hoje (Set/2015) em relação ao real, 1 dólar = 4 reais, os cubanos estão ganhando muito bem. Salário Mínimo no Brasil = R$ 788, Cuba se ainda for 300 pesos cubanos equivale a 1200 reais. E viva a Cuba.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s